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O Câmbio no trem


Imagem de StockSnap por Pixabay


"Venham a mim! andem comigo e irão recuperar a vida...aprendam os ritmos livres da graça! (Jesus em Mateus 11. 28-30  AMensagem - Eugene Peterson, Bíblia em Linguagem Contemporânea)


Cota por Cota - o câmbio no trem


Cada vez mais papai achava difícil de explicar para sua mãe de onde vinha o dinheiro. Ele passou a guardar o dinheiro nos bolsos de suas roupas.

Papai tomou conhecimento de um tal "câmbio" que ocorria nos vagões do trem.  O "câmbio" não legalizado era uma forma das pessoas driblarem a crise , consequências da grande guerra e o 'jeitinho brasileiro' ou ainda 'se virando para ter sustento e alimentar a família",  assim: a pessoa tinha falta de algum mantimento em casa (café, açúcar, arroz, feijão...), então, ia para o trem onde havia o "câmbio" e trocava por aquilo que lhe faltava. Era café por arroz, feijão por açúcar e assim por diante...Trocavam cota por cota, mantimento por mantimento. O que tinha em casa trazia para trocar por algo de que precisasse.

Papai viu aquilo e quis fazer o mesmo, percorreu todos os nove vagões do trem tentando comprar cotas. Ele queria entrar naquele mercado, mas não era fácil porque com crianças eles não faziam trocas, tinham medo de dar cadeia. Às vezes, papai dizia que era o mais velho da casa, (ele era bem alto para a idade que tinha) e que trabalhava para ajudar seu pai em casa onde havia onze pessoas mais o pai e a mãe, e as cotas que recebiam do governo não davam para o mês.

O objetivo do papai era comprar, pois ele tinha o dinheiro, mas os mantimentos não eram vendidos, não se envolvia dinheiro, só trocavam mantimento por outro mantimento. Um homem, tirando a carteira do bolso  falou ao papai: -"Garoto, dinheiro eu tenho! Está faltando é arroz lá em casa."

Muito complicado para o papai e  para as pessoas, todos precisavam de algum ou outro mantimento. De vez em quando papai conseguia comprar uma "cota" do que faltava em casa, mas o problema era explicar como havia conseguido, justamente, a "cota" do alimento em falta.

Alguns meses se passaram nesta luta: enganar em casa que estudava, ficar tentando fazer o "câmbio no trem". Alguém, conhecido e amigo do vovô, viu o papai no trem pelejando para fazer a troca de seu dinheiro por uma cota de mantimento e, assim que encontrou vovô foi logo dizendo a ele o que vira e elogiava a atitude de papai.  

O trem percorria doze estações, de Vigário Geral ao terminal em Barão de Mauá, no Centro da cidade. O trem era chamado de "Maria Fumaça" pelo povo,  porque era a vapor. Papai  dizia que o trem tinha nove vagões,  ele entrava no último vagão e ia percorrendo todos até chegar ao destino, tanto na ida como na volta para a casa, e  quando o trem chegou à quinta Estação,  a da Penha, ao passar de um vagão para outro, papai ouviu uma voz dizendo: -"Dá passagem para o menino que trabalha e sustenta casa!"

Papai paralisou, a voz era de seu pai !

E agora? Qual seria a reação de vovô?  

- E por esta história meus pensamento se voltam para a maior e melhor troca que papai fez em vida: trocou seu pesado fardo pelo fardo suave de Jesus Cristo. Ele entendeu, por graça e misericórdia de Deus, que o Eterno Senhor deu Seu Filho Único e Justo, para que o pecador fosse salvo e justificado diante DEle. O justo pelo injusto, o Santo que pagou a dívida do pecador. Jesus Cristo sofreu em nosso lugar. Ele morreu a nossa morte e por meio dela temos vida abundante NEle.  

Papai conheceu a "graça generosa de Jesus Cristo. Ele era rico, mas deu tudo por nós. tornou-se pobre para que nós nos tornássemos ricos." (2a coríntios 8. 9 - AMensagem, Eugene Peterson, Bíblia em Linguagem Contemporânea)

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