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O fim não justifica os meios

 




Imagem de kerut por Pixabay

O fim não justifica os meios

"Não mintam uns aos outros." Colossenses 3. 9

"As pessoas honestas são calmas e confiantes, corajosas como um leão." Provérbios 28. 1

(De acordo com _AMensagem_ de Eugene Peterson, Bíblia em Linguagem Contemporânea)

Minha avó sempre dizia: "A mentira tem pernas curtas" e papai aprendeu, na prática.

Papai estava decidido a trabalhar. O plano dele era o seguinte: estudaria até o mês de julho, (ele estaria na 5a série em 1943, com 12 para os 13 anos de idade),  quando entrariam as férias escolares. A partir daí arrumaria um serviço e ganhando um dinheiro poderia ajudar a família em casa. Ele tomou a decisão de não voltar a estudar após as férias. 

Os meses de maio, junho, julho e agosto eram as épocas dos balões que flutuavam no céu azul e as ruas se tornavam inimigas, porque havia certa competição para correr e pegar os balões quando estes começavam a cair, crianças e adultos corriam , cada um com sua turma. Havia muitas brigas e papai presenciou algumas. Pois foi num dia destes que o grupo do papai encontrou o grupo do sr. José, cada grupo pertencia a uma rua , mas passados os meses dos balões, tudo voltava ao normal, e aí ocorria bons papos.

Papai ouvia e conversava com o sr. José, junto ao grupo.  As conversas eram sobre a situação difícil, as lutas nos lares pela sobrevivência era dura. As conversas se davam à beira de um rio ou no meio da mata. E desta vez estavam em cima de uma ponte que dividia o Distrito Federal do Rio de Janeiro, o rio que passava embaixo da ponte era o São João de Meriti. 

O sr. José tinha uma oficina de bombeiro eletricista na cidade e papai perguntou ao sr. José se ele não poderia trabalhar na sua oficina para ajudar a família Maia, em casa.  O sr. José disse: -"Eu instalei uma linha telefônica na oficina, às vezes, estou na rua atendendo um freguês, tenho perdido alguns recados. Se você quiser eu arranjo para você este "bico", mas não posso te pagar mais do que cinco mil réis por semana (equivalente, hoje, a uns 50 reais). Eu falarei com seu pai e você desce comigo no trem das 06h10min da manhã, e volta comigo." Papai respondeu: -"Não fala com meu pai, não. Porque eu já conversei com ele que iria arranjar um trabalho para ajudá-lo." Acontece que papai havia falado ao vovô Dunga que era somente no período das férias escolares, sua intenção  era outra.

E, assim na manhã do dia seguinte, lá estava indo papai para o seu primeiro emprego.  Na primeira semana o sr. José pagou as passagens e almoço para ele.

Então, acabaram-se as férias!.

Papai fingia que ia para escola, mas ele pegava a sua pasta escolar, ia para a Av. Getúlio Vargas(hoje), naquele tempo era Praça 11 de junho, esquina da Pinto Azevedo, bem perto de onde ele se perdera da turma no carnaval de 1938. Ele voltava para casa e mentia à sua mãe, dizia que tinha passado a tarde na casa da madrinha dele. A aventura durou quatro meses. Neste tempo ele conseguiu uma boa ajuda para a casa, sem ninguém ficar sabendo de onde vinha o dinheiro.

Papai aprendia rápido. Às vezes, ele ficava sozinho na oficina e aparecia algum freguês trazendo aparelhos para consertos: uma torneira, um ferro de passar roupa, uma enceradeira... e pediam para ele: "Dá um jeito pra mim, estou precisando urgente." E, ele dava o jeito, consertava e entregava o aparelho arrumado. No início os clientes queriam pagá-lo, mas papai rejeitava e mandava que eles acertassem com o sr. José,o patrão. Mas alguns insistiam para ele receber o dinheiro e não dizer nada ao patrão e nem anotar no caderno de atendimento. Ele cedeu  a tentação, mais uma mentira. Papai, assim, conseguia tirar três ou quatro mil réis a mais do pagamento que recebia. E ele tinha consciência de que a sua atitude estava errada e seu José prejudicado. Mas a necessidade da família falava mais alto do que a razão.

E aí, como explicar em casa a origem do dinheiro? 

A mentira não é boa e gera consequências, mais cedo ou mais tarde, e leva a outras mentiras.  A corrupção, a falcatrua e os corruptores existem. Nada justifica o erro de papai. O objetivo do papai era bom e digno, mas o modo e os meios usados por ele não foram  honestos.  Foram enganosos.  

O não estudar teve um custo para ele.

Quando ele começou a vida cristã lendo e estudando a Bíblia ele entendeu que o pai da mentira é o Diabo. Ele sempre procurava obedecer a Palavra, falando a verdade, mesmo que isso lhe acarretasse prejuízo.

                                                                       continua.....

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